segunda-feira, junho 17, 2013

Movimentos sociais apontam “eixo do mal” no governo


Aliança de Dilma com ruralistas, religiosos e grandes veículos de comunicação barra o avanço das reivindicações da sociedade civil, diz novo presidente do Conselho Nacional de Juventude.
POR EDSON SARDINHA E SYLVIO COSTA | 17/06/2013 07:30


Para Alessandro Melchior, "núcleo duro" do governo impede avanço da pauta dos movimentos sociais
Militantes do PT e dos movimentos sociais estão cada vez mais insatisfeitos e decepcionados com a presidenta Dilma Rousseff e enxergam nela um conservadorismo que remete mais ao ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso do que a Lula. O alerta é feito por um petista, militante do movimento de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), o estudante de Direito Alessandro Melchior, recém-eleito presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). “A reforma agrária foi reduzida. A política de combate à homofobia acabou. O governo Dilma é mais conservador na relação com os movimentos sociais”, avalia o paulista de 26 anos, que comandará o órgão composto por representantes da sociedade civil e do governo, vinculado à Presidência da República.
Para Alessandro, Dilma não dialoga com os movimentos sociais porque se aliou ao “eixo do mal”, termo utilizado por ele para se referir ao tripé agronegócio, “fundamentalismo religioso” e grandes veículos de comunicação. Uma aliança sustentada, segundo o petista, pelo “núcleo duro” do governo: as ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Helena Chagas (Secretaria de Comunicação Social da Presidência) e os ministros Aloizio Mercadante (Educação), Alexandre Padilha (Saúde) e Paulo Bernardo (Comunicações).
Homofobia
Na avaliação dele, esse grupo é responsável por barrar o avanço das pautas apresentadas pelos movimentos sociais e pelo retrocesso no combate à homofobia. “A presidenta disse que não é papel do governo fazer defesa de opção sexual. Isso mostra que ela tem dificuldade de entender o que é avanço de direitos civis e de cidadania”, critica.
Segundo Alessandro, desde que o governo recuou na distribuição do kit anti-homofobia, por pressão da bancada evangélica no Congresso em 2011, o assunto nunca mais voltou à pauta do Ministério da Educação. “Até hoje a gente não conseguiu retomar essa discussão. Não dão abertura para voltarmos a conversar. As informações que a gente tem é que documentos que trabalham com o tema homofobia são vetados, precisam ser reeditados. A palavra homofobia não entra no MEC”, reclama Alessandro.
Endurecimento de críticas
Além da parceria entre o “núcleo duro” e o “eixo do mal”, o perfil centralizador da presidenta Dilma também prejudica a relação com os movimentos sociais, considera o militante. Para ele, falta diálogo entre os ministérios, os ministros pouco se expressam e, quando o fazem, são repreendidos. Uma letargia que não passa incólume aos movimentos sociais, acostumados a uma relação para lá de intensa nos tempos de Lula.
“O posicionamento de todos os movimentos sociais é sempre na evolução da intensidade da crítica ao governo. O MST, a CUT, a UNE, as mulheres, o movimento negro, não há um movimento social que faça uma avaliação positiva do governo. Há sempre um endurecimento de críticas ao governo. O cerco da PF no Ministério de Minas e Energia não me lembrou o governo Lula, mas o governo FHC”, critica.
Sem alternativa
Apesar da relação fria entre o governo e os movimentos sociais, Alessandro avalia que há pouca chance de algum dos pré-candidatos capitalizar a insatisfação dos militantes da sociedade civil com Dilma. Para ele, Aécio Neves (PSDB) representa a “política do cassetete”, Eduardo Campos (PSB) “não tem relação melhor com os movimentos sociais” e Marina Silva (sem partido) “não tem opinião”. “Veja como vamos mal das pernas”, cutuca.
Criado em 2005, ainda no primeiro governo Lula, o Conjuve é ligado à Secretaria Nacional de Juventude e à Secretaria-Geral da Presidência da República. Composto por 20 membros do governo federal e 40 representantes da sociedade civil, tem entre suas atribuições formular e debater políticas de juventude. Alessandro foi eleito em 16 de maio para mandato de um ano.
Natural de São José do Rio Preto (SP), o estudante de Direito Alessandro Melchior, de 26 anos, começou sua militância política no movimento estudantil secundarista, como membro da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes). Integrante da corrente majoritária do PT, Alessandro milita desde 2008 no movimento LGBT, pelo qual foi indicado para ocupar uma cadeira no conselho.
Meia-entrada
Nesta entrevista ao Congresso em Foco, além de criticar o distanciamento de Dilma em relação aos movimentos sociais, o militante também faz ressalvas às políticas de juventude e antidrogas, adotadas pelo atual governo.
O presidente do Conselho Nacional de Juventude joga a toalha quanto à definição de um limite de 40% para a venda de meia-entrada em espetáculos artísticos e esportivos. A cota foi incluída no projeto do Estatuto da Juventude, aprovado no mês passado pelos senadores e que será examinado novamente pelos deputados. “Isso significa que estudantes, adolescentes e idosos vão disputar esses 40% com professores, policiais militares e pastores, todas as diversidades que os estados acharem importante. Aí não haverá meia-entrada para ninguém.”
“Governo Dilma é mais conservador”
Para o novo presidente do Conselho Nacional de Juventude, Alessandro Melchior, atual governo falha na relação com os movimentos sociais, em vez de apostar no diálogo como Lula, e lembra FHC. Leia a íntegra da entrevista
POR EDSON SARDINHA E SYLVIO COSTA | 17/06/2013 07:30

Rodolfo Stuckert/PR
Lula promovia o diálogo com movimentos sociais, enquanto Dilma cerceia ministros, afirma militante LGBT e da juventude

Congresso em Foco – Quais serão suas prioridades à frente do Conselho Nacional da Juventude?
Alessandro Melchior – 
Temos dois eixos. Um é a agenda política externa da sociedade, como a reforma do ensino médio, a democratização dos meios de comunicação e a reforma política. A gente reconhece que não tem possibilidade de impacto real sobre esses temas, mas pode agregar força nesse debate. O outro eixo é o acompanhamento das políticas de juventude no governo federal. Há um entendimento, até no próprio governo, de que a política de juventude hoje é o Prouni (Programa Universidade para Todos), o Fies (Programa de Financiamento Estudantil) e o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego). O Pronatec é feito muito em parceria com o sistema S. Há um marco de demandas de políticas da juventude hoje não reconhecidas pelo governo, como as da população do campo e da comunidade LGBT. Essas áreas priorizadas pelo governo são importantes, mas têm elementos contraditórios.
Que contradições são essas?
O Pronatec tem o objetivo de oferecer 8 milhões de vagas. Essas vagas são ofertadas via sistema S, sem licitação, com professores contratados sem direitos trabalhistas. É um recurso público utilizado por determinada classe social de forma privada. Há suspeitas de problemas na prestação de contas e execução. O problema do Prouni é a falta de fiscalização do ensino superior. Não há controle de qualidade. Geralmente, quem vai para faculdade particular é o estudante pobre, que não tem condições de passar na universidade pública. Aí ele é penalizado pela baixa qualidade de ensino. Hoje o programa Ciência sem Fronteiras, que é supervalorizado no Ministério da Educação, não trabalha com a área de humanas. Acham que só é importante formar em exatas, tecnologia e infraestrutura. Vamos formar, mas para que tipo de sociedade e cidadania? Programas como o Projovem, com elementos de transferência de renda e recuperação de jovens, têm sofrido com o descaso do governo nos últimos dois anos.
Há uma discussão acalorada na sociedade e no Congresso a respeito de temas como drogas e homossexualidade. Na sua opinião, o governo Dilma tem sabido lidar com essas questões?
Um jornalista dizia que havia alguns poucos elementos sombrios no governo Lula. Acho que o governo Dilma começou com mais elementos sombrios do ponto de vista de vários temas. Há descaso total da presidenta Dilma em relação ao tema LGBT. Em 2008, tínhamos de 40 a 50 centros de referência no combate à homofobia. Hoje, se tivermos cinco, é muito. De todo o orçamento destinado ao combate à homofobia do ano passado, nem R$ 1 milhão foi executado. A presidenta disse que não é papel do governo fazer defesa de opção sexual. Isso mostra que ela tem dificuldade de entender o que é avanço de direitos civis e de cidadania. Tem um núcleo duro do governo que combate essa agenda. Os poucos avanços que conseguimos vieram do Judiciário, com o reconhecimento da união civil pelo Supremo Tribunal Federal e a decisão do Conselho Nacional de Justiça que obrigou os cartórios a registrarem esse tipo de união. É importante, mas é muito triste que esses avanços em direitos civis tenham vindo de um poder não político, não legitimado pelo voto popular. Isso mostra como estamos mal das pernas do ponto de vista do poder político, tanto no Legislativo quanto no Executivo.
O que está por trás desses recuos do governo?
Há uma aliança muito forte para garantir a governabilidade, por meio da relação fisiológica com o Congresso, do fundamentalismo religioso e do ruralismo. Brincamos que é o eixo do mal – o apoio à grande mídia, o fundamentalismo religioso e o agronegócio. A manutenção dessa aliança é um erro estratégico que tem dificultado o avanço dessas pautas. Não vejo necessidade de se manter um governo que se diz progressista com uma base conservadora como essa. Isso não faz o país avançar, mas retroceder em direitos. A gente tem problema no interior do governo. No Ministério da Educação, por exemplo, a pauta homofobia não entra.
Não entra por causa do ministro Aloizio Mercadante?
A gente já teve reuniões com o ministro. A simpatia é grande, mas o encaminhamento das pautas é reduzido. O kit homofobia foi vetado ainda na gestão do Fernando Haddad por orientação expressa da Presidência da República. Mas até hoje a gente não conseguiu retomar essa discussão no MEC. Não dão abertura para voltarmos a conversar. As informações que a gente tem é que documentos que trabalham com o tema homofobia são vetados, precisam ser reeditados. A palavra homofobia não entra no MEC.
Isso ocorre desde a paralisação das votações no Congresso, promovida pela bancada evangélica, contra o kit-gay?
Isso, desde o kit-gay e a ameaça de convocação do ministro Antonio Palocci naquela época.
Que avaliação você faz da posição do governo Dilma em relação às drogas?
Do ponto de vista das drogas, há uma miopia maior do governo. Não é só um elemento de disputa de opinião política, é uma questão matemática. Temos no Brasil uma política repressiva, que garante reserva de mercado para o crime organizado. O crime organizado sustenta o sistema financeiro e político em todo o mundo. Em 2008, ano em que estourou a crise financeira, mais de 400 bilhões de dólares foram lavados do crime organizado para o sistema financeiro. Elas sustentam campanhas e não têm impacto na saúde da população brasileira como o álcool e o cigarro. Quem defende o projeto que passou na Câmara é a galera que quer financiar o fundamentalismo religioso por meio das comunidades terapêuticas. Em 2011, o Conselho Federal de Psicologia divulgou relatório que comprovava, após visitas a inúmeras casas terapêuticas vinculadas a entidades religiosas, que muitas dessas casas viraram centros de tortura.
Que consequências essa política antidrogas deixa?
Hoje a política antidrogas é ineficiente, burra, inconsequente, aliada do crime organizado, na contramão do que vem discutido em nível mundial. O próprio governo dos Estados Unidos, que sempre foi propulsor da política de guerra total às drogas, já tem reconhecido que o foco não deve ser mais esse. A OEA vai fazer seminário no final de junho também nesse sentido. Enquanto isso, do ponto de vista interno, temos uma omissão do governo federal que resulta na morte da juventude e no financiamento do fundamentalismo religioso. No Congresso Nacional, quase todos os deputados que defendem a internação compulsória são ligados a essas instituições religiosas.
Você citou o núcleo duro do governo, que seria responsável por esse encaminhamento deformado desses temas. Quem é esse núcleo duro?
Se você analisar a expressão pública da Esplanada dos Ministérios no governo Lula, os ministros falavam, os temas eram discutidos na sociedade, as pastas discutiam entre si. Havia uma vida pública agitada no centro do governo federal. No governo Dilma, isso não existe mais. Ministro não dá entrevista. Quando fala, é altamente cerceado. A ministra Eleonora Menicucci, quando assumiu a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, disse que era, pessoalmente, a favor do aborto. Logo em seguida, teve de se retratar. No inicio do governo, no Fórum Social Mundial, o ministro Gilberto Carvalho disse que uma das prioridades do governo seria a disputa ideológica com setores conservadores, como a bancada evangélica. Foi obrigado a se desculpar. O núcleo duro está fora desses eixos que citei. A Casa Civil é responsável por muitas das dificuldades que as pautas e os direitos sociais têm enfrentado no Brasil, assim como o Ministério da Educação. E existe, ainda, uma diferença de perfil da presidenta Dilma e do ex-presidente Lula.
Esse núcleo duro seria formado por Dilma, Mercadante e Gleisi?
O núcleo duro são os ministérios mais próximos da presidenta, como a Casa Civil, a Secretaria de Relações Institucionais, a Secretaria-Geral da Presidência. O avanço de políticas sociais e garantia de direitos tem sido empacado pela Casa Civil, pela indisposição pessoal da presidenta em comprar brigas, pelo ministro Mercadante e pelo ministro Alexandre Padilha, que tem feito uma gestão recuada no Ministério da Saúde em vários momentos. Os ministros Paulo Bernardo [Comunicações] e Helena Chagas [Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República] também estão inseridos nesse núcleo duro do governo.
E a questão da meia-entrada e da meia-passagem, que o Congresso está definindo no Estatuto da Juventude e numa lei geral? Não há um excesso de benefícios dessa natureza, que acaba prejudicando o restante da população, que paga a conta?
Dá para pensar que existe um exagero. A gente tem de entender que a meia é uma política de ação afirmativa de acesso à cultura para populações que historicamente têm mais dificuldade. Para estudantes, que estão em processo de formação, idosos e professores, tem um elemento de ação afirmativa. Mas há um elemento de excesso também. A questão da renda também deveria ser levada em conta. Você pode ser estudante de escola particular muito cara e, por isso, não precisar dessa ação afirmativa para ter acesso aos bens culturais. O Estatuto da Juventude traz um avanço importante que é garantir a meia-entrada a jovens de baixa renda que não estudam. O problema é que, como não há uma legislação nacional aprovada, o que acontece é que os estados criam política de meia-entrada para policiais, bombeiros, professores de ensino fundamental, médio e universitário. Cada hora um deputado corporativista garante a meia-entrada para a sua categoria. Acaba não existindo meia-entrada para ninguém, porque o valor é maior.
A meia-entrada não inviabiliza grandes grupos artísticos, mas pode prejudicar grupos autônomos, não?
São dois trabalhos paralelos. Quando discutimos a política cultural, é muito no viés de criticar a Lei Rouanet, esse instrumento que dá ao setor privado a possibilidade de garantir o financiamento da cultura no Brasil, de maneira muito elitizada, alcançando o público de artistas de grande expressão. A gente defende a meia-entrada para o público que precisa de política afirmativa para ter acesso aos bens culturais. O que existe de problema é o entendimento de que, com a redução do universo de quem tem direito à meia, o preço vai baixar. Isso não existe. No Senado, o Estatuto da Juventude limitou a 40%. E na Câmara o projeto de lei geral da meia-entrada, relatado pelo deputado Vicente Cândido (PT-SC), também limitou essa cota a 40%. Isso significa que estudantes, adolescentes e idosos vão disputar esses 40% com professores, policiais militares e pastores, todas as diversidades que os estados acharem importante. Aí não haverá meia-entrada para ninguém. O grande defeito desses dois projetos é a falta de fiscalização. Falam de um limite de 40%, mas não dizem como isso será fiscalizado. Os grandes produtores culturais é que vão dizer quando for alcançado o limite.
Que apoio vocês têm para tentar reverter essa decisão na Câmara?
Do ponto de vista da meia-entrada, a gente não tem mais a disposição de fazer esse debate da cota. No mérito, a gente perdeu. Não vamos retomar essa discussão. O Estatuto foi aprovado há mais de um mês no Senado e ainda não foi para a Câmara. A gente desconfia que seja o problema da meia-passagem. É possível que haja um lobby das empresas de transporte coletivo.
Por quê?
O projeto garante direito até duas passagens de ônibus para estudantes e jovens de baixa renda, por veículo, e também direito a meia-passagem a jovens estudantes de baixa-renda. Ele estende o benefício do Estatuto do Idoso para juventude de baixa renda. Isso tem impacto no lucro das grandes empresas, que vão continuar repassando o custo para a grande população. Nunca reduzem o lucro.
Esse pensamento em relação ao governo Dilma é compartilhado por outros setores dos movimentos sociais?
No governo FHC, a relação com os movimentos sociais era ruim. O diálogo com os trabalhadores sem-terra, a CUT e a UNE era na base do cassetete e da cavalaria. No governo Lula, houve aposta no diálogo, com dezenas de conferências nacionais nas áreas da juventude, da comunidade LBGT, das mulheres, da igualdade racial. Todos os temas entravam na agenda do governo. A reforma agrária avançou muito, havia greve no funcionalismo.
Falta esse diálogo no governo Dilma?
Com o governo Dilma, você percebe uma queda desse eixo de gestão que é o dialogo. Há poucos dias o MST ocupou o Ministério de Minas e Energia. A Polícia Federal estava disposta a tirar os militantes na pancada. Não teve greve considerada legal ou legítima pelo atual governo. A reforma agrária foi reduzida. A política de combate à homofobia acabou. O governo Dilma é mais conservador na relação com os movimentos sociais do que o governo Lula. O “eixo do mal” da política nacional – a grande mídia, o fundamentalismo religioso e o agronegócio – tem aliados fortes no governo Dilma. Aliados orgânicos e ideológicos ou cooptados com o processo, que agora entraram para a casa grande.
Quem, por exemplo?
Gente que tem uma síndrome para entrar na casa grande, como o Paulo Bernardo [ministro das Comunicações], o queridinho da grande mídia, e a Gleisi Hoffmann [ministra da Casa Civil], que teve papel fundamental para derrubar a última secretária nacional Antidrogas. O Mercadante quer ser aceito pela casa grande de São Paulo para ser governador. São os aliados atuais do eixo no governo.
Há um sinal de rompimento entre o governo Dilma e os movimentos sociais?
Acho que ainda não há um rompimento. Mas o posicionamento de todos os movimentos sociais é sempre na evolução da intensidade da crítica ao governo. O MST, a CUT, a UNE, as mulheres, o movimento negro, não há um movimento social que faça uma avaliação positiva do governo. Há sempre um endurecimento de críticas ao governo. O cerco da PF no Ministério de Minas e Energia não me lembrou o governo Lula, mas o governo FHC. Eu estava lá. E vi que a galera estava disposta a tirar à força. Quando você precisa ocupar ministério para ser recebido pelo governo é porque o diálogo não é coisa prioritária do governo.
Isso desmobiliza os movimentos sociais?
Não fragiliza, só fortalece. O que fragiliza é a dificuldade das pessoas de entender a diferença entre governo, partido e movimentos sociais, especialmente num governo de esquerda. Não entender a diferença entre eles é que desmobiliza.
E o que muda com a proximidade das eleições presidenciais, em 2014?
Por conta das eleições, quais são as possibilidades mais imediatas? O Aécio, que representa a política do cassetete. O Eduardo Campos, que não tem relação melhor com os movimentos sociais. Vejo disposição do governo em melhorar essa relação do ponto de vista eleitoral, por conta da aproximação da eleição. Mas não vejo disposição em melhorar isso na relação cotidiana ou na definição de políticas. No caso da Marina, a saída dela foi a de ser a candidata insossa da classe média, que tem uma bandeira que a classe média acha bacana, que é o ambientalismo, mas ela não se posiciona. Não tem opinião. Aproximou-se muito da classe média e da grande mídia na ultima eleição e vai cumprir seu papel com o PSDB de levar a eleição para o segundo turno. Com todos os problemas, é melhor um governo Dilma do que um governo Marina. Veja como vamos mal das pernas.
Uma crítica que se faz é que a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi cooptada pelo governo federal ao receber grande volume de recursos. Você concorda com essa crítica?
Não acho que foi cooptado. No último congresso da UNE, a nova presidenta fez críticas severas ao governo. Há um reconhecimento de avanço no ensino técnico, embora tenha havido um crescimento ainda maior no governo Lula. Os problemas têm de ser reconhecidos. O governo deveria repassar recursos de forma descentralizada para os veículos de comunicação. Mas centraliza em veículos que têm como centro editorial o racismo, a homofobia, é um absurdo. A gente tem um governo omissão com a política de comunicação. Tanto a UNE quanto a Ubes cumprem o seu papel histórico. Se pegar as pautas de reivindicações, as plataformas do movimento estudantil até hoje, desde as décadas de 1970, são coerentes. O fato de receber recurso público não quer dizer que ela tenha sido cooptada. Bancos e veículos de comunicação também recebem e não são acusados disso.



domingo, junho 16, 2013

MENSAGEM DE DILAIR AGUIAR, FILHO DE DYNÉAS!!

Reproduzo aqui mensagem que Dilair Aguiar, filho dileto de Dynéas Aguiar me enviou.Pungente e emotivo. Sinto o mesmo que ele sobre o pai e por isto nos irmanamos nas homenagens e na tristeza!!


Oi Luiz,
obrigado pelas palavras de carinho. Por aquelas ironias do destino, a Laís também está numa UTI desde terça-feira, com pneumonia -- felizmente, já em recuperação. Envio a mensagem que escrevi dedicada não só ao Dynéas, mas a tantos outros companheiros revolucionários que, mesmo mortos, continuam entre todos nós.

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Quando eu era bem pequeno, o Dynéas costumava ler para mim fábulas e estórias infantis, mas também, de um jeito muito próprio, falava de revoluções e das lutas dos povos, fazendo com que o Pequeno Polegar convivesse com os guardas vermelhos da Revolução Russa. Assim, se me entristecia pela desventura do Soldadinho de Chumbo, vibrava com a promessa de Spartacus e seu exército de escravos: “voltaremos, e seremos milhões!”
Já adolescente, li em algum lugar que, para muitas nações indígenas, ao morrermos nos juntamos aos nossos ancestrais e, ao nascermos, todos eles voltam a viver através de nós. Mesmo descrente do aspecto místico, gostava de especular sobre essa ideia, pensando que, em lugar de nossos antepassados consanguíneos, os avós, bisavós , tataravós e os demais que nos antecederam, nossos ancestrais bem poderiam ser todos aqueles que, em algum momento do longo curso da história da humanidade, se ergueram contra a opressão e pela liberdade.
Nossos verdadeiros ancestrais seriam então os gladiadores que desafiaram o poder de Roma, ou os camponeses alemães que tentaram levar ao extremo a Reforma Protestante e deram a vida em prol da extinção dos privilégios.  Os negros e indígenas que combateram nos quilombos. Os proletários franceses que se sublevaram na Comuna de Paris. Tantos, tantos exemplos... Quantas derrotas contundentes, o amargo sentimento do fracasso inevitável, mas quantas e quantas vitórias esplendorosas, que iluminaram os séculos seguintes!
Hoje, meu pai, Dynéas Aguiar, após décadas de incessante luta pelo comunismo, partiu para se juntar aos seus companheiros de tantos combates, como Amazonas, Grabois, Arruda, Pomar e Arroyo, mas também a outros ancestrais, o espoliado agricultor mexicano que um dia disse basta e se somou ao Exército Revolucionário do Sul de Emiliano Zapata, ou o pequeno vietnamita que pegou em armas contra a dominação japonesa, francesa e estadunidense.
Os guerreiros zulus que puseram abaixo a arrogância das tropas britânicas na batalha de Isandlwana, assim como os indígenas de Touro Sentado que esmagaram a cavalaria do general Custer, em Little Bighorn. Estes são os nossos antepassados, os que passaram da indignação para a luta, sem temer consequências, e deixando um grandioso legado para todos os povos.
Dyneas, Amazonas, Arruda e tantos outros fazem agora parte da legião dos que, desde o início da História, lutaram pelo avanço da humanidade, derrubando tantos e tantos impérios que antes pareciam eternos e invencíveis e hoje não passam de meros e superficiais verbetes enciclopédicos. Eles são os nossos ancestrais, nossos antepassados, a linhagem coletiva da humanidade.
Todos eles se foram. Será mesmo? Quem pode garantir que, quando um jovem palestino arremessa uma pedra contra um blindado israelense, seu braço não é também impulsionado pelo Osvaldão ou a Helenira? Ou no íntimo de um sem-terra, resistindo à prepotência dos latifundiários e seus jagunços, não ecoam as batidas dos pequenos tamborileiros da Revolução Francesa?
Todas, todas essas vidas e lutas estão interligadas. Se o Dynéas não está mais agora entre nós, pode porém estar voltando à vida na Grécia, Espanha, Itália, África, América Latia, Ásia, em todas as partes do mundo onde descendentes dessa formidável ancestralidade coletiva começam a contestar a ordem vigente e, incorporando em si todos os milhões de antepassados combatentes ,  avançam, cada vez mais, na luta pelo fim da opressão, do jugo imperialista.  E a cada gesto de revolta, de indignação, de luta, ali também estão nossos companheiros ancestrais.
Dynéas, agora você está entre os antigos, os antepassados, os ancestrais.  Mas espero também, como garante a cultura indígena, que tanto você como os milhões de nossos ancestrais coletivos continuem a renascer em todas as partes do mundo, dando mais uma valiosa contribuição para o avanço revolucionário, pelo  fim do capitalismo, pelo fim da exploração do homem pelo homem. 

sábado, junho 15, 2013

Sempre presente!!

Adeus, Dynéas Aguiar! Você está presente!
Por Cezar Xavier
 

Dynéas Aguiar foi homenageado, nesta sexta (14), durante a despedida dos camaradas, amigos e familiares no velório que ocorreu na Câmara Municipal de São Paulo. O presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, e seu filho Dilair Aguiar, relembraram a luta de Dynéas contra a opressão e pela igualdade social, durante os 63 anos que foi militante comunista.
Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois, lembrou o entusiasmo de Dynéas Aguiar ao levantar o punho para saudar o Partido, na solenidade que homenageou o centenário de nascimento de João Amazonas e Maurício Grabois, ocorrida ali na mesma Câmara dos Vereadores. Ele encerrou a homenagem convidando a todos para repetir o gesto que Dynéas certamente faria junto, se vivo.
Veja também:
Dynéas Aguiar morreu na quinta-feira (13), em decorrência de uma pneumonia e da luta contra a miastenia — um distúrbio neuromuscular de caráter congênito crônico ou autoimune — que o atingiu nos últimos anos. No velório, compareceram lideranças do Partido, como o vereador Orlando Silva, presidente do PCdoB paulistano; Nádia Campeão, vice-prefeita de São Paulo; Jamil Murad, presidente estadual do Partido; André Tokarski, presidente nacional da União da Juventude Socialista (UJS); e Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois e secretário nacional de Formação do PCdoB — além de militantes e amigos que se emocionaram com os familiares.
Últimos remanescentes
Renato Rabelo lembrou toda a trajetória de Dynéas Aguiar e a enorme contribuição que ele deixou para a formação política de quadros e militantes, com a estruturação da Escola Nacional do PCdoB. “Dynéas foi um militante abnegado e convicto na defesa da linha política do PCdoB e da causa comunista”, disse ele. Renato Rabelo lembrou o trabalho do militante na vice-prefeitura de Campos de Jordão (SP), que enviou representação ao velório.
Também mencionou os trabalhos mais recentes no Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois. Para o presidente do PCdoB, um dos momentos mais importantes de sua participação comunista foi a reestruturação partidária, após a queda da Lapa, quando dirigentes do Partido foram assassinados.
“Dyneas é um dos últimos remanescentes dos bravos camaradas que ousaram reorganizar o PCdoB na senda da revolução”, lembrou Renato Rabelo, ressaltando a participação dele na reorganização do Partido em 1962. Desta forma, ele foi fundamental na articulação de duas gerações de dirigentes que sustentaram o funcionamento do Partido em momentos difíceis. “Adeus, Careca (codinome de Dynéas na clandestinidade)! Dynéas, você está presente!”, finalizou Renato Rabelo, comovido.
Linhagem coletiva da humanidade
Dilair Aguiar discursou em nome da família, destacando a esperança de que o legado de seu pai renasça a cada dia nas lutas contra a opressão capitalista. “Após décadas de incessante luta pelo comunismo, meu pai partiu para se juntar aos seus companheiros e ancestrais de tantas lutas como Amazonas, Grabois, Arruda, Pomar e Arroyo, mas também de tantos outros ancestrais”. Dilair citou lutas históricas de todo o mundo e todos os tempos que enfrentaram a opressão do dominador com desproporção de força.
“Esses são os nossos antepassados, os que passaram da indignação para a luta. Estes são os nossos ancestrais, nossos antepassados, a linhagem coletiva da humanidade”, disse ele. Dilair reccoreu a força das ideias de todos estes que já se foram. “Quem pode garantir que quando um jovem palestino arremesa uma pedra contra um blindado israelense, seu braço também não é empunhado por um Osvaldão ou uma Elenira? Todas essas vidas estão integradas”, disse ele, lembrando outros companheiros de luta conhecidos de Dynéas Aguiar.
“Dynéas, agora você está entre os antigos, os antepassados, os ancestrais. Mas espero que, como garante a cultura indígena, que tanto você como os milhares de nossos ancestrais coletivos continuem a renascer em todas as partes do mundo, dando mais uma valiosa contribuição para o avanço revolucionário, pelo fim do capitalismo e pelo fim da exploração do homem pelo homem”, encerrou ele, com a voz embargada.
O féretro seguiu para o cemitério da Lapa, logo após essas palavras e aplausos, onde Dynéas Aguiar foi enterrado, por volta das 16 horas, deixando um legado muito vivo para ser lembrado e compartilhado.

quinta-feira, junho 13, 2013

A Revolução, o PCdoB e a Humanidade perdem Dynéas Aguiar, o "Careca"!!


LUTO TOTAL!!
Acabei de ser informado do falecimento em São Paulo, de meu amigo, camarada, mentor, o comunista revolucionario Dynéas Aguiar, o “Careca”. Imensa tristeza se abateu sobre mim, pois estive falando com ele há pouco tempo e há um ano mais ou menos fui visita-lo, quando já tentava se recuperar de uma doença  neurológica, a “cabeça caída”- não sei o nome cientifico dela, Eu e ele com doenças diferentes mas neurológicas, que nos tiraram da batalha diária pelo socialismo e a revolução. Posto aqui uma foto que minha amiga Mara tirou na ocasião do encontro, lá em Vinhedo, na casa de sua filha “Tininha” com quem ele estava morando.
Não tenho muito mais a dizer sobre este acontecimento, até porque eu e o Carlos Umberto havíamos combinado a tempos de escrever uma biografia dele, relatando sua história de homem e revolucionário comunista exemplar.
O PCdoB e todos os revolucionários e comunistas de diferentes matizes e lutadores pelo bem estar da humanidade estão com certeza tristes e solidarios com “Tininha e Dilair, seus filhos queridos, neste momento tão desolador.
Eu que era um amigo dileto e admirador de sua vida e sua luta, estou completamente desolado. A natureza  tinha que ser mais generosa e dar mais tempo e chances para o “Careca” se recuperar e mesmo após seus 80 anos de vida, voltar a ativa, como ele desejava tanto.

“Careca” querido, espero superar debilidades causadas por minha doença, para logo que possível retomar com o Umbertinho ou quem se dispor, a escrever, deixar na história do Partido  e da luta do povo brasileiro, sua trajetória de vida e de lutas, que tanto nos orgulha!! Onde for seu espirito ou sua alma, podem acreditar que lá ele estará lutando pelo bem do povo, o socialismo e tecendo a revolução.

terça-feira, junho 11, 2013

Blog do Luiz Aparecido: RELATO IMPRESCINDIVEL DE NOSSO CAMARADA E AMIGO EL...

Blog do Luiz Aparecido: RELATO IMPRESCINDIVEL DE NOSSO CAMARADA E AMIGO EL...: Elias Jabbour: Um encontro com o vice-presidente chinês Estive na China pela quarta vez em menos de dez anos. Desde 2004, minhas visitas...

RELATO IMPRESCINDIVEL DE NOSSO CAMARADA E AMIGO ELIAS SOBRE SUA RECENTE VIAGEM A CHINA!!

Elias Jabbour: Um encontro com o vice-presidente chinês


Estive na China pela quarta vez em menos de dez anos. Desde 2004, minhas visitas sempre estiveram voltadas à consecução de pesquisas de mestrado e doutorado. Esta última ocorreu, entre os dias 20 e 31 de maio, a convite do Partido Comunista da China, para um programa chamado “China nos Livros”. Reuniram-se pesquisadores, acadêmicos e jornalistas de 14 países diferentes. Pessoas voltadas, em suas áreas, à cobertura da China.

Por Elias Jabbour*


Elias Jabbour
Li Yuanchao
Elias Jabbour e o vice-presidente da República da China, Li Yuanchao, em encontro na China, em maio de 2013.
Uma profícua viagem de estudos que envolveu extensa programação de debates, mesas redondas e encontro com lideranças chinesas de todos os níveis. Entre esses encontros causou grande impressão a informal recepção oferecida no Grande Salão do Povo com o atual vice-presidente da República da China, Li Yuanchao.

Formalidade e informalidade

Antes do encontro fui avisado acerca da atenção concedida por Li Yuanchao às questões da América Latina. Exatamente duas semanas antes do encontro o vice-presidente chinês esteve na Venezuela fechando parcerias na área energética entre os dois países.

Todos conhecem a famosa formalidade chinesa a este tipo de encontro. Não esperava nada diferente, desde a preparação até a recepção em si. Tudo obedeceu ao jeito chinês de fazer as coisas. Só soubemos deste encontro pela manhã. O horário marcado à recepção foi às 17 horas. E às 17 horas, pontualmente, as portas do Grande Salão foram abertas. Um a um dos participantes foram cumprimentados por Yuanchao; cada um sentou em seus ligares previamente estabelecidos pelo cerimonial, assim como cada um recebeu um dispositivo informando sobre os participantes que ladeariam o vice-presidente da República.

Antes do encontro tratei de me informar acerca da carreira deste homem que poderá encabeçar a próxima geração dirigente da República Popular. Advogado, Doutor em direito, militante do Partido Comunista da China (PCCh) desde 1978. Antes do atual posto encabeçou o governo e o PCCh em Nanjing e Jiangsu, foi secretário nacional de organização até 2012. Um currículo muito comum entre os líderes do país: formação superior em todos os níveis, ex-governador de ao menos duas províncias e experiência no trabalho interno do PCCh. Um mandarim confuciano de altíssimo nível, diga-se de passagem. Algo nada incomum na seara do Estado e do PCCh.

A formalidade é quebrada nas palavras iniciais de nosso anfitrião. Agradecimentos, citação de nomes e trabalhos dos convidados. Sorrisos e disposição à troca de ideias. Gírias em inglês e brincadeiras que deixaram nossa interprete corada. Assim prosseguiu o restante da reunião em duas horas muito marcantes para todos nós.

Transições na América Latina e na China

Previamente fora acordado que seria impossível a todos os convidados emitirem questões. Logo, um representante de cada continente seria escolhido. Foi quase a natural a minha escolha como representante da América Latina e Caribe. Desde que saí do hotel, após um dia inteiro de reuniões com altos representantes do Ministério das Relações Exteriores, pus na minha cabeça que não poderia deixar passar em branco uma oportunidade única que estava para chegar.

Se fosse para me dirigir ao vice-presidente, que fosse evitando clichês, com extrema educação, inglês impecável e uma questão de fundo sobre conjuntura internacional e o futuro do socialismo. Desde que percebi o estilo do mandatário percebi que não viria uma resposta generalizante, puramente diplomática e repleta de tergiversações. Sabia que aquele homem para chegar onde chegou passou por inúmeras provas e disputas renhidas. Sabia que sua indicação para os sete que atualmente compõem o Comitê Permanente do Politburo do CC do PCCh teve forte oposição do ex-presidente Jiang Zemin. A resposta de Xi Jinpeng e Hu Jintao foi sua indicação ao cargo de vice-presidente da República. Oficialmente não é membro formal do referido Comitê Permanente. Porém é o oitavo membro informal, com grande prestígio. Tinha certeza de que algo de fundo viria da boca daquele homem.

      
        Reunião no Grande Salão do Povo, entre o vice-presidente chinês Li Yuanchao e pesquisadores, acadêmicos e 
           jornalistas de 14 países diferentes, no programa “China nos Livros”.


Tinha sete minutos para me apresentar e elaborar uma questão. Fui o terceiro a falar e as respostas anteriores acerca das relações da China com a África e uma possível passividade chinesa diante dos acontecimentos no Oriente Médio somente me deram a certeza de que existe uma confusão entre jornalistas e “especialistas” em China: em sua maioria não compreendem que a noção de tempo aos orientais é diferente desta mesma noção a nós ocidentais. Tempo, história e guerra são quase o mesmo ideograma. E tenho clareza de que na mente dos chineses o tempo corre a favor deles. Sabem que um dia chegou ao fim os impérios mongol, romano e inglês. Um dia chegará a hora dos Estados Unidos.

Apresentei-me discorrendo acerca da minha jornada acadêmica, dos artigos e as relações e respostas que busquei, e busco em minhas pesquisas. Dei destaque à minha militância no Partido Comunista do Brasi. O vice-presidente fazia sinal positivo com a cabeça. Mas, como os nordestinos isso não é sinal de concordância. É sinal de atenção ao interlocutor.

Minha questão foi clara sobre a visão dele sobre a relação entre a transição vivida na China nos últimos 30 anos e a transição entre as ditaduras militares, passando pela violência neoliberal até hoje onde alguns países como a Venezuela e Bolívia, inclusive, advogam o socialismo. Busquei pontuar, sempre, o nefasto papel cumprido pelos Estados Unidos na região. Percebi mais um sinal de positivo com a cabeça.

Serventia ao horizonte socialista

Como disse, sabia que não viria uma resposta qualquer. Uma longa resposta de 20 e poucos minutos me aguardava. Após elogios à minha trajetória, Yuanchao foi direto ao ponto: “as ditaduras militares e o neoliberalismo somente serviram para demonstrar que o socialismo é o único caminho viável para a América Latina”.

Daí veio uma aula de estratégia e tática do movimento comunista internacional desde a Revolução Russa. “Cada país deverá encontrar seu próprio caminho ao socialismo”. Colocou, ironicamente, que “o povo chinês sempre foi incomodado com a influência exercida pelo modelo soviético”. “O próprio presidente Mao era o mais incomodado, nos dizendo sempre que deveríamos achar nosso próprio caminho de construção do socialismo”.

Calmo, afável, reto. Falou honestamente da necessidade de “fundir o marxismo com o pensamento de gigantes latinoamericanos como José Marti e Simon Bolivar”. Sobre o Brasil, deixou clara sua simpatia com a trajetória do Partido Comunista do Brasil, “partido irmão e fundado na mesma época que o Partido Comunista da China”.

Abriu um largo parêntese para descrever uma “longa conversa noite adentro com meu querido amigo Nicolás Maduro, onde pudemos trocar inúmeras opiniões sobre a atual situação o socialismo, como construir o socialismo e as razões da superioridade do socialismo diante do capitalismo”.

A condução da radicalização política e a economia


Estava digerindo sua visão de mundo, pensando no fato de o vice-presidente da maior nação do mundo ter encontrado tempo em sua conturbada agenda para receber-nos. Mas, sua resposta não tinha findado. Passou a falar exclusivamente na condução política de processos complexos. Deixando claro que sabia o que estava ocorrendo na América Latina, expressou que “existe uma radicalização em curso na América Latina e o sucesso dos movimentos e partidos que advogam o socialismo está na capacidade de conduzir essa radicalização de forma que a América Latina não seja vítima de uma apostasia, pois os interesses contrários ao progresso da região são poderosos”.

Não sei se o objetivo dele era transmitir um recado, mas para mim estava claro. Existem erros políticos, subestimação do inimigo, falta de base estratégica, falta de teoria revolucionária e péssimas experiências no âmbito da condução econômica nas experiências populares na América Latina. Subjetivismo cristão, caudilhismo de esquerda, ilusão de classe e falta de perspectiva diante de mandatos que estão a se encerrar, cuja falta de um partido político consequente faz-se sentir com força. Muita emoção e pouca razão. Essa é a América Latina cuja observação de Yuanchao deixa subentendida.

Por fim, o desafio de governar. Yunchao comparou a experiência revolucionária chinesa, “uma tomada de poder pelas armas, em guerras prolongadas”, “enquanto um fenômeno novo ocorre no mundo, cuja América Latina é o principal laboratório de experimentação”. Continuou, “em seu continente partidos revolucionários estão alcançando o poder pelo voto”. Para ele, isso engendra o desafio de “governar melhor que os conservadores”. E governar melhor que os conservadores, para ele, “é não somente ser bom gestores políticos, mas mestres em matéria de economia”. Certamente retirou de Lênin a famosa frase de 1920 quando colocou que “em determinado momento, devemos discutir mais economia em detrimento da política”. De forma mais sofisticada, encerrou com a seguinte afirmação: “não devemos atropelar até a morte a economia pela política”.

Satisfação e comparações

Senti-me satisfeito, realizado após um encontro deste nível com uma pessoa cujas responsabilidades são difíceis de serem aferidas. Os desafios políticos brasileiros me tomaram de assalto logo em seguida. As comparações podem parecer ser desonestas, porém inevitáveis.

O sistema meritocrático chinês está a produzir e reproduzir políticos de alto nível, estadistas em grande parte. Homens e mulheres de larga visão, ampla cultura universal e conhecedores de seu arredor. Às vezes parecem arrogantes, mas não. Apenas sabem de seu lugar em seu país e no mundo. Tem de ser capazes de dar cabo a desafios impostos à China que envolvem uma batalha que pode decidir o próprio futuro da humanidade. O horizonte estratégico deles é completamente outro em relação ao que percebo nas figuras de Estado no Brasil. É outra história...

Eles se preparam, planejam e executam. Não podem dar-se ao luxo de recorrer a manuais para saber o que certas doutrinas permitem ou não. Buscam a verdade nos fatos, sabem onde querem chegar. Uma pergunta me assalta após sessões de debates com os chineses.

Afinal, onde o Brasil quer chegar?

*Elias Jabbour é Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP. Autor de China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado (Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012)


domingo, junho 09, 2013

SENADOR CHERMONT, O SUPLENTE DE PRESTES!


Legenda: Senador Renan entrega ao neto do senador Chermont diploma do mandato

*Carlos Pompe
Semanas atrás, o Senado devolveu simbolicamente os mandatos do senador Luiz Carlos Prestes e seu suplente, Abeu de Abreu Chermont, ambos do Partido Comunista do Brasil, arbitrariamente cassados por uma decisão da Mesa da Casa em janeiro de 1948. Prestes foi representado por sua viúva, dona Maria. Chermont, por seu neto, Carlos Eduardo. Na emocionante cerimônia realizada, o senador cearense Inácio Arruda, líder do PCdoB e autor da proposta da devolução dos mandatos, fez um pronunciamento com uma avaliação política da decisão e breves esboços biográficos de Prestes e Chermont.
A vida e lutas de Prestes têm sido estudadas e divulgadas em várias obras, inclusive cinematografias. Já sobre Chermont pouco tem sido divulgado. Por isso, reproduzo aqui o trecho do pronunciamento do senador Inácio Arruda sobre o também senador e, depois, suplente de Prestes:
Abel de Abreu Chermont foi eleito suplente de Prestes nas eleições complementares realizadas em 19 de janeiro de 1947. Advogado e jornalista, nasceu em Belém, em 21 de junho de 1887. Participou do levante militar no Pará em 1916, que depôs o governador Enéas Martins para ascensão do governador Lauro Sodré em 1917. Foi deputado federal de 1918 a 1920, pelo Partido Republicano Federal, prefeito de Belém, em 1921, deputado federal de 1933 a 1934, pelo Partido Liberal Paraense, e senador, pela União Popular do Pará, de 1935 a 1936. Fundou o Grupo Parlamentar Pró-Liberdades Populares que enfrentou os integralistas.
Foi ele, como advogado, quem impetrou, no dia 2 de março de 1936, habeas-corpus em favor de Harry Berger, militante alemão enviado ao Brasil pela Internacional Comunista, que fora preso em dezembro do ano anterior e torturado até a loucura. Dezenove dias depois, o próprio Abel Chermont foi preso, episódio que é referido por Graciliano Ramos nas suas Memórias do Cárcere, onde narra que ele foi “arrancado violentamente de casa, entrado em luta física desigual, levado a braços como um fardo resistente, metido no cárcere e aguentado sevícias, por se haver oposto, no Senado, aos desmandos selvagens da ditadura policial reinante”. Seu filho, Francisco Chermont, também foi preso pela ditadura varguista.
Libertado em maio de 1937, reocupou seu posto no Senado, onde denunciou as arbitrariedades de que foi vítima: foi preso por 16 detetives que obrigaram sua mulher e dois filhos menores a acompanhá-lo à polícia, onde foi espancado. Exerceu o mandato até 10 de novembro de 1937, quando, com a decretação do Estado Novo, foram fechados todos os órgãos legislativos do país.
Nas eleições de 2 de dezembro de 1945, candidatou-se a senador pelo Distrito Federal na legenda do Partido Comunista, ao lado de Prestes, mas não conseguiu o mandato. Em 19 de janeiro de 1947, nas eleições complementares, conquistou a vaga de suplente de Prestes.
Ainda em 1947, Chermont depôs na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os crimes do Estado Novo, presidida por Plínio Barreto. De 1949 a 1950, integrou a primeira comissão diretora do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional. Abel Chermont faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de setembro de 1962.
***
Assim como a família Prestes, a família Chermont enviou ao senador Inácio mensagem de agradecimento:
Exmo. Sr. Senador da República Inácio Arruda,
 A família do Senador Abel de Abreu Chermont a quem, por projeto de iniciativa de V.Exa aprovado unanimemente, foi devolvido o mandato de suplente de Senador dele arbitrariamente cassado no ano legislativo de 1948, vem agradecer-lhe a acolhida calorosa que nos foi dispensada e louvar a grandeza do gesto que fez restaurar os valores da Democracia que ele, V.Exa. e essa Casa tanto prezaram e prezam.
 Com esses sentimentos suas palavras traduziram o profundo idealismo que norteia a vida pública de V.Exa e expressaram sua fé inabalável em defesa do Estado de Direito como única forma de serem alcançados os valores sociais que podem dar ao povo condições de vida e dignidade, através de uma distribuição de riquezas mais justa.
 Peço ainda que transmita aos demais Senadores, seus pares, também nossos agradecimentos pela homenagem realizada na memorável sessão de 22 de maio último.
 Subscrevendo-nos atenciosamente,

 Carlos Eduardo A. Chermont e família

* Carlos Pompe é jornalista, comunista, editor do Vermelho/DF e da direção regional do PCdoB/DF

terça-feira, junho 04, 2013

Artigo de Jaime Sautchuk vê progressos nas discussões de Paz na Colombia!!!

Acordo é vitória da Colômbia

Estas jovens e belas guerrilheiras sonham voltar para seus lares. Mas com direitos, justiça e igualdade!

JAIME SAUTCHUK (*)

O acordo entre o governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias (FARC), semana passada, é vitória de uma luta de 50 anos e de toda uma nação. Na primeira fase, o acordo define a questão agrária, item básico de um ajuste mais amplo, e foi aplaudido pelo mundo inteiro, da ONU à Casa Branca.

Para alguns que, com apoio de parte da mídia, sempre trataram as FARC como uma organização “narco-terrorista”, agora é difícil ver o mundo enaltecendo as negociações diplomáticas, iniciadas há 6 meses, sob a mediação dos governos da Noruega e Cuba,  e acompanhadas pelos do Chile e da Venezuela. Mas isso é um detalhe, o importante é a dimensão do fato.

Em sua homilia do último domingo, da janela do Vaticano, o Papa Francisco abençoou o acordo e disse orar para que este seja um primeiro passo “para a paz permanente”. Antes dele, a Conferência Episcopal da Colômbia (equivalente à CNBB no Brasil) havia emitido comunicado entusiasmado, manifestando a fé dos bispos daquele país em que, agora, “esteja aberto o caminho para a paz”.

No dia em que o acordo foi selado, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, fez questão de ele próprio anunciar o fato ao planeta. “É uma conquista significativa e um passo importante para o mundo todo”, disse ele.

Em Washington, o governo dos Estados Unidos também engoliu em seco e soltou um comunicado elogioso. O porta-voz ajunto do Departamento de Estado, Patrick  Ventrell disse que a Casa Branca “há muito tempo apoia com força o presidente Manuel Santos e o governo da Colômbia  em sua busca por uma paz duradoura e da segurança às quais o povo colombiano tem direito”.

Coloca, pois, o acordo como um feito do governo colombiano, como se fosse uma espécie de capitulação das FARC. Em verdade, porém, o que foi aprovado é o centro do programa das forças revolucionárias, apresentado ainda na década de 1960, quando adotou a luta armada como forma de tentar mudar a Colômbia. Uma proposta das FARC, portanto. Mas isso não é o mais importante.

É certo que sucessivos governos da Colômbia não queriam coversa. Preferiam tentar massacrar as FARC pelas armas. Foram formados, inclusive, truculentos grupos paramilitares, com mais de cinco mil homens, que década após década combateram os revolucionários sem as regras internacionais que impõem limites a esses conflitos, condenando morte de civis, tortura etc., que esses grupos não respeitam.

Agora, não. Existe de fato enorme boa vontade do governo do presidente Juan Manuel Santos, e isso é de inegável valor. E, a bem da verdade, também o governo do presidente Barack Obama apoia de fato essas negociações, o que é uma mudança importante. Os governos anteriores dos Estados Unidos eram a favor do combate armado ao movimento guerrilheiro.

Foi ele próprio, o presidente Santos, quem anunciou, em rede nacional, os avanços obtidos nas negociações que vêm sendo feitas em Havana, Cuba. Ele enumerou e detalhou os pontos centrais do acordo já fechado.

 A começar pela regularização das chamadas “áreas liberadas”, que estima-se em 30% do território nacional, onde já foi feita a reforma agrária, e a criação de um fundo para indenizações e para a aquisição de novas terras.

Será criado um programa de capacitação dos agricultores, com vistas à melhoria da produtividade, que, segundo disse, é muito baixa. Anunciou, ainda, a definição de formas de incentivo, com a facilidade de crédito oficial para aquisição de equipamentos e todo tipo de insumo agropecuário.

Por fim, o que considerou fator fundamental, será criado um amplo programa de saúde, educação, saneamento básico e proteção social às famílias do campo. Ou seja, um plano de desenvolvimento social pra ninguém botar defeito.

Pra colocar tudo isso em prática, ele deu posse a um novo ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, o que, por si só, demonstra a confiança que ele deposita no acordo já firmado.

O novo ministro é Francisco Estupiñan Heredia, um experiente e respeitado professor universitário, que já foi vice-ministro da Fazenda e, no momento, ocupava o cargo de presidente do Banco Agrário da Colômbia.

Na fala de Santos, no comunicado das FARC, na opinião dos diplomatas dos países mediadores e acompanhantes, na de analistas de universidades e de organismos internacionais, todos reconhecem, contudo, que este é um importante passo, mas ainda não é tudo. Outros itens colocados na mesa podem emperrar as negociações.

São quatro os principais itens ainda pendentes, que voltarão a ser discutidos no dia 11 de junho próximo. O primeiro deles é o da deposição total de armas, com o qual, claro, as FARC concordam. Mas, desde que outros tópicos também sejam aprovados.

O principal deles é o da garantia de direitos políticos aos ex-guerrilheiros, o que inclui a possibilidade de eles se candidatarem em eleições livres na Colômbia. Esse é um ponto que encontra sérias resistências entre setores conservadores no país.

Mas acabará sendo acordado, até porque há exemplos em diversas partes do mundo. Um deles: quando o governo da Grâ-Bretanha firmou acordo semelhante com o Exército Republicano Irlandês (IRA), o Sinn Féin, braço político da guerrilha, passou a lançar candidatos em todas as eleições, apesar da resistência de conservadores de Londres.

Há mais dois itens importantes no acordo com as FARC. Um, é a reparação das vítimas da prolongada guerra, de ambos os lados, o que envolve complicadas imputações de responsabilidades e formas de pagamento.

E, por fim, vem o combate ao narcotráfico, no que ambos os lados concordam. O que pega é que as FARC defendem que essa seja uma questão interna da Colômbia, o que implica a saída das forças dos EUA que ainda estão por lá a título de combate aos traficantes.

Ou seja, as coisas estão muito bem encaminhadas. E assim, a pujante Colômbia mostra ao mundo o seu valor.

*Jaime Sautchuk é jornalista, vice presidente do Cebrapaz/DF e defensor da solidariedade entre os povos e do socialismo!