segunda-feira, abril 29, 2013

Joaquim Nabuco e a relação política-religião


Joaquim Nabuco


*Carlos Pompe

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo sempre é referido nas escolas como um dos políticos que se destacaram na luta pela abolição da escravatura. Esse deputado federal, diplomata, jurista e jornalista pernambucano, nascido em 1849, também foi um grande defensor do Estado laico. Vale lembrar seus ensinamentos sobre o tema, emitidos na segunda metade do século XIX e início do século XX (morreu no início de 1910).
Ele criticou a Igreja Católica Apostólica Romana por ter se valido do trabalho escravo: "A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da emancipação", disse.
Num período em que o clero gozava de todas as benesses governamentais, Nabuco defendia a separação entre Estado e Religião e a laicidade do ensino público. Discursou, em 15 de maio de 1879, quando tinha 30 anos: "Eu desejava concordar com os nobres deputados, em que se deveria deixar a liberdade a todas as seitas; mas, enquanto a Igreja Católica estiver, diante das outras seitas, em uma situação privilegiada (…), os nobres deputados hão de admitir que (…) ela vai fazer ao próprio Estado, de cuja proteção se prevalece, uma concorrência poderosa no terreno verdadeiramente leigo e nacional do ensino superior. Se os nobres deputados querem conceder maiores franquezas, novos forais à Igreja Católica, então a separem do Estado."
 "É a Igreja Católica que em toda a parte pede a liberdade do ensino superior. Essa liberdade não foi pedida em França pelos liberais; mas pela Igreja. (…) É por que reconheça que o ensino deva ser livre? Não. Aí está o Syllabus que fulmina de excomunhão quem o sustentar". O que ela pretenderia é "a partilha do monopólio para, quando achar-se senhora exclusiva (…), fechar a porta à liberdade e à ciência". Infelizmente são palavras que guardam intensa atualidade neste século XXI. Em tempo: o  Syllabus errorum foi uma lista de erros proclamada pelo papa Pio IX, em 1864, condenando o panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferentismo, socialismo, comunismo, franco-maçonaria,judaísmo, igrejas cristãs adversárias e outras formas de liberalismo religioso.
Vai além, o orador: "A Igreja Católica foi grande no passado, quando era o cristianismo; quando nascia no meio de uma sociedade corrompida, quando tinha como esperança a conversão dos bárbaros, que se agitavam às portas do Império minado pelo egoísmo, corrompido pelo cesarismo, moralmente degradado pela escravidão. A Igreja Católica foi grande quando tinha que esconder-se nas catacumbas, quando era perseguida. Mas, desde que Constantino dividiu com ela o império do mundo, desde que de perseguida ela passou a sentar-se no trono e a vestir a púrpura dos césares, desde que, ao contrário das palavras do seu divino fundador, que disse: - O meu reino não é deste mundo, - ela não teve outra religião senão a política, outra ambição senão o governo, a Igreja tem sido a mais constante perseguidora do espírito de liberdade, a dominadora das consciências, até que se tornou inimiga irreconciliável da expansão científica e da liberdade intelectual do nosso século!"
 Encerra seu pronunciamento com palavras, que para serem mais atuais, só bastava juntar à Igreja Católica as seitas evangélicas: "Quando o catolicismo se refugia na alma de cada um, eu o respeito; é uma religião da consciência, é um grande sentimento da humanidade. Mas do que sou inimigo é desse catolicismo político, desse catolicismo que se alia a todos os governos absolutos, é desse catolicismo que em toda a parte dá combate à civilização e quer fazê-la retroceder".
 *Carlos Pompe, jornalista, comunista, editor do Vermelho?DF

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